terça-feira, 31 de maio de 2011

Escrito em Évora, a 13 de Junho de 2010... Faz sentido, talvez mais agora do que quando o escrevi...

"Não cairás no abismo do nada,
mas no abraço seguro de Deus
cujo amor curará todas as tuas feridas."
H. Nouwen

Quem decide empenhar-se neste caminho de ser inteiramente Teu, meu Bom Deus, não pode fechar os olhos à fria e cruel solidão que, por vezes, irrompe por todos os cantos escuros do coração e da inteligência. Nesta noite, sinto o leve passear da solidão pelos meandros frágeis do que sou, murmurando o seu triste canto, que excita o sentimento e endurece a vontade. Oiço-a falar-me de velhos sonhos, recordar-me rostos passados e sei que quer fazer-me crer que não podes levar-me a parte alguma. Ela diz-me que morrerei estéril, caído no vazio, vergado sob o seu peso que não deixará de crescer.

Apesar de tudo isto, eu sei que és maior que a minha solidão. Tenho a certeza que permaneço fielmente guardado no Teu Coração, amado e querido para sempre. Sinto que continuas a falar-me ao coração nas vozes de tantos homens e mulheres que partilham os meus dias e o meu viver. Sei que não deixas de chamar-me a ser o máximo do que posso ser e permaneces enviando-me ao mundo, para ser sinal do Teu Jesus e instrumento do Teu Espírito... Mesmo não querendo carregar a cruz do Evangelho na minha vida, abraço-a até saber amá-la e querê-la, pela salvação do mundo.

Fica comigo, meu Pai, e faz vibrar dentro de mim a Tua alegria; acerta o pulsar do meu coração ao Teu e que não deixe de fazer-se em mim, segundo a Tua Palavra. Adoro e Confio.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Amados por esse amor eterno,
pressentimos que a nossa resposta é antes de mais abandonarmo-nos.
E assim, uma sede enche a nossa alma:
sede de abandonar tudo em Deus.

[...]

É pelo dom da nossa vida
que Deus espera que em nós se tornem perceptíveis o fogo e o Espírito.
Sim, o seu amor é um fogo.
Por muito pobres que sejamos,
não apaguemos o fogo, não apaguemos o Espírito.
a muito humilde confiança da fé propaga-se como o fogo,
de uma pessoa à outra."
[Irmão Roger de Taizé]

A nossa liberdade, de homens e mulheres criados pelo Amor para amar, é o campo onde se joga o sentido da existência. A liberdade humana abre-nos infinitas possibilidades de realização pessoal e de verdadeira humanização, mas pode tornar-se também o lugar onde nos condenamos a uma vida medíocre e desfiguramos a beleza da nossa dignidade. O sentido radical da existência descobre-se e cumpre-se nas opções que, em liberdade, assumimos.  Apesar dos condicionalismos que colocam o absoluto da liberdade fora do nosso alcance, somos livres e este é dom mais excelente que Deus oferece ao ser humano, na medida em que é sinal de um amor verdadeiro, do amor d'Aquele que deixa o amado crescer e construir-se em liberdade. É comum dizermos que o Senhor tem um projecto de felicidade para nós, é comum dizermos que é necessário aderir a este projecto para encontrarmos a nossa identidade mais verdadeira e promovermos a causa da humanização da pessoa. No entanto, isto só tem um sentido concreto quando percebemos que o projecto que Deus tem para oferecer-nos é um projecto inacabado, na medida em que é na liberdade das nossas escolhas que somos chamados a dar-lhe um rosto único, irrepetível e insubstituível, moldado na estreita comunhão entre cada um de nós, o outro e o Senhor.

A prévia dissertação serve apenas para introduzir uma certeza muito pessoal: quero colocar a minha inteira liberdade na tarefa de aprender a amar, buscando assumir a vontade de Deus como pedra angular do meu caminho. A consciência da minha pobreza, da minha pequenez não me impede de desejar ser de Deus com toda a minha liberdade. E, de um modo muito especial, a minha pequenez impele-me a confiar ainda mais no Senhor, pois nunca poderei chegar a ser o que Ele é sem que seja Ele a mostrar-me o caminho; ainda mais, a caminhar à minha frente. Num tempo de particular confronto com o modo de ser discípulo com outros que não escolhi, num momento em se debatem interesses, vontades e caprichos no seio da comunidade que devo assumir como família, tenho a minha esperança na palavra do Apóstolo:

"Sei em quem pus a minha confiança"
[2 Tm 1,12]

domingo, 2 de maio de 2010

Mãe,

Precisava do teu silêncio e da tua humildade. Queria olhar o mundo e os outros com a tua atenção e ternura. Desejava que o meu rosto e a minha vida transparecessem uma serenidade alegre e confiante como a tua...

Há desafios que nos são colocados e aos quais só podemos responder pondo em questão toda a nossa vida, estendendo os nossos horizontes até ao infinito e confiando, confiando imensamente em Deus. No encontro com Ele, por entre os pequeninos passos que vou dando, descubro esta urgência em apaixonar-me cada vez mais. Viver apaixonado e não ter medo de me abandonar à vontade do Amor: não me deparo com um desafio maior.

Olhar-te, Mãe, é contemplar este desafio tornado vida e perceber que também eu posso chegar a gerar para o mundo o Deus Connosco. Ao contrário do que às vezes penso, isto não significa nem sucesso ou fama, nem poder ou influência. Como em ti, Maria, ser de Deus para dá-l'O a todos é algo que acontece no silêncio e cresce no segredo do coração inteiramente consagrado.

Estou quase certo que também não percebeste tudo isto à partida. Experimentando a perversidade do meu enorme egoísmo e a atracção permanente pelo pecado da soberana auto-sufiência, espero ir saboreando as escondidas vitórias do amor.

Não deixes que eu seja um filho mimado e preguiçoso. Todos os filhos gostam de colo e eu também. Não permitas, porém, que isso seja desculpa para não crescer. Que os teus mimos me tornem um homem que, na sua liberdade, aprendeu a escolher ir para além de si, encontrando nos outros e no Outro a realização plena da sua vida.

Totus tuus, Maria... Inteiramente teu, Maria. E teu, de Cristo...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Não existe verdadeira vida cristã sem contemplação. Entendo a contemplação como aquele simples abrir a vida ao mistério que nunca se deixa alcançar em pleno, mas que pode ser saboreado como presença viva e alegre de Deus em nós. Não se trata de uma atitude beata ou espiritualista. É, antes de tudo, a atitude de quem, não podendo compreender tudo, se abandona na confiança e se deixa surpreender pelo Senhor, na disponibilidade para ser preenchido de luz e de paz.

Hoje, pude contemplar o dom da vida de um amigo. Sentir que o dom da vida e da entrega dos outros é imprescindível para o meu caminho e assumi-lo com alegria traz-me a certeza de que a vida que recebi do Senhor é bela e verdadeiramente digna de ser amada. Ser Igreja é isto mesmo: experimentar a beleza do dom que Deus nos faz ao tornar imprescindível a presença e o testemunho dos irmãos nos passos que vamos dando, rumo àquela unidade que é a comunhão de vida com Ele. No final de mais um dia, basta-me contemplar este mistério de um Deus Amor que encarna na vida de tantos homens e mulheres para fazer brotar, no meio dos seus, o Reino da alegria, da justiça e da paz.

“Que grande é a alegria de viver,
quando se tem a Deus e só a Deus!
Como são pequenos os problemas que a vida nos apresenta,
problemas cuja solução está somente em Deus”
[S. Rafael Báron]

quinta-feira, 22 de abril de 2010

“Abraça o que Deus quer.

Oferece-lhe por entre inquietudes e dificuldades

o sacrifício da tua alma simples que, frente ao que quer que seja,

aceita os desígnios da sua providência.”

[Pe. Teilhard de Chardin, sj]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

No fim deste dia, quero partilhar algumas coisas que me têm ocorrido acerca da vocação, nesta semana dedicada especialmente à oração pelas Vocações. Diversas situações e acontecimentos têm-me levado a procurar perceber com maior clareza esta dinâmica entre um amor que chama e desinstala e uma resposta que se concretiza precisamente na experiência mais profunda deste amor. Por vezes, tendemos a interpretar esta linguagem como se amar e ser amado fosse um doce sonho, no qual tudo nos convém e alegra, onde tudo é realização e ausência de dor.

Com muita pena minha, o amor não é nem pode ser isto, e, por conseguinte, Deus não pode querê-lo nem desejá-lo para nós. Esta “felicidadezinha” tem um leve travo a utopia, a desejo nunca concretizável, como se a vida, quando confiada a Deus, fosse um triunfal passeio de fama rumo a um horizonte bem definido e pensado por nós.


A vocação pronunciada por Deus em nós, seja ela qual for, ultrapassa os limites do que pode ser racionalizado e medido. É um verdadeiro salto no abismo, sem que saibamos qual o passo seguinte, no qual só podemos confiar num Amor que, muitas vezes, nos parecerá ausente. A resposta não é dada de uma vez para sempre, e aceitar dizer sim é confrontarmo-nos com as múltiplas resistências que vamos colocando ao projecto de Deus, é enfrentar um mistério de densas trevas que trazemos ancorado no fundo da alma.

Se ficar por aqui, quase parece que ser “vocacionado” é o pior que podemos desejar. Contudo, descobri que a beleza da eleição de Deus, que não deixa ninguém de lado, é a sua imensa gratuidade: na nossa debilidade somos acolhidos por Alguém que deseja levar-nos ao máximo do que podemos ser, Alguém que não tem medo de sujar as mãos, mas que Se dá a Si mesmo e quer comungar do que somos.
Nesta noite de trovoada, encontrei uma analogia que me ajudou a compreender um pouco mais da minha atitude diante deste Deus que ama e chama. Facilmente fico deslumbrado pela luz do relâmpago que rasga o céu e ilumina a noite, mas o forte e sonoro trovão arrepia-me e perturba a aparente calma desta hora. Assim também eu, apesar da beleza dos sinais da graça do Senhor em mim, continuo a resistir à sonora e desinquietante voz de Deus, que pede uma confiança absoluta e uma coragem firme, neste desafio de ser aquilo que Ele quer.

“Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde” [Jo 14, 27]

segunda-feira, 19 de abril de 2010

“Os amigos são a melhor forma de Deus cuidar de nós”

Abri mesmo agora o meu livro de cânticos dos Convívios Fraternos e olho esta pequena citação, escrita a letras vermelhas. Está assinada por um amigo: Fernando. Ontem tive a alegria de celebrar com ele e com muitos outros amigos e irmãos a sua Ordenação de Presbítero.


Foi um dia estranho, no qual a alegria incontida e a inquietude perturbadora foram alternando, percorrendo todos os momentos, configurando os encontros e transportando-me para o futuro, para o dia em que serei eu (se Deus assim quiser e eu também) a receber o dom de ser Padre para a Igreja e para o mundo.

É tão bom partilhar com um irmão e amigo este dom, nunca merecido, de ser escolhido e tomado pelo Senhor para ser repartido e entregue, de modo que outros sejam de Deus e tenham vida em abundância. O testemunho dos outros e, de modo especial, o do Fernando enche-me da esperança que traz a certeza de que o Senhor cumpre as suas promessas e completa o bem que Ele um dia em nós começa. Resta-me pedir um verdadeiro coração de pastor, consciente que na fragilidade do barro de que sou feito pode o Senhor derramar o óleo que, um dia, virá a perfumar toda a Casa.

No início de mais uma Semana de Oração pelas Vocações, surge o desafio de pedir ao Senhor homens e mulheres alegres, decididos, generosos e dispostos a tornarem-se sinal e instrumento do Reino que Deus preparou para toda a família humana. O meu testemunho não converterá ninguém, mas não deixará de ser sacramento da bondade e da ternura do Pai, que pode aproximar do projecto de Deus aqueles que se deixarem tocar por Ele.