quarta-feira, 11 de março de 2009

"Dilatai o vosso coração"...

Oiço a voz do Senhor, que fala por Paulo, a pedir-me mais...

"A nossa boca tem-se aberto para vós, ó coríntios; dilatou-se o nosso coração. Não é estreito o espaço que tendes em nós; o vosso íntimo é que se estreitou. Pagai-nos com a mesma moeda - como a filhos vos falo: dilatai, também vós, o vosso coração."
2 Cor 6, 11-13

sexta-feira, 6 de março de 2009

"Nas fontes da salvação saciai-vos na alegria"


Em dia de perdão e reconciliação, num tempo particularmente propício à "releitura de vida", quero partilhar convosco uma oração que escrevi num destes dias, num daqueles momentos em que sentimos a presença de Deus queimar no coração...

Jesus, Palavra do Pai, tem misericórdia de mim...
Caudal das águas vivas,
que brotas do Coração de Deus,
sacia-me,
emerge-me em Ti,
derrama-Te na profundidade do ser que me anima.

Toma o Teu lugar no espaço mais interior de mim,
o lugar que apenas Tu podes preencher,
mas que não pode conter a Tua Totalidade;
aí, irradiando a paz da Tua presença,
irrompe uma nascente viva e torrencial,
uma nascente que torne dom
tudo o que as suas águas tocarem.

Que corra do meu coração
a torrente da caridade,
levando-me todo,
como dádiva, com ela;
que esta torrente,
nascida do Coração do Pai,
entregue pelo Teu "Coração Rasgado",
e permeada, na essência, pelo Espírito,
se derrame sobre todos os que vêm até mim...

Profundamente trespassado pela força vital,
que vem de Ti para mim,
sublimado pelo abismo do Amor,
que anima a Trindade,
consagrado e enviado aos homens,
pelo Espírito, que faz todas as coisas novas,
eu serei, em Ti,
o sinal daquela Unidade,
pela qual, és Tudo em todos.
Amen.

domingo, 1 de março de 2009

"Voltai-vos para Deus"...

"Deus não se cansa de retomar o caminho connosco. Podemos acreditar que uma comunhão com ele é possível e assim nunca nos cansamos de, também nós, retomar sempre de novo o combate. Não perseveramos para nos apresentarmos diante de Deus com o nosso melhor aspecto. Não, aceitamos avançar como pobres do Evangelho, que se confiam à misericórdia de Deus."

Irmão Alois de Taizé
Quaresma. Vêm-me à memória cinco imagens: a cruz que trago comigo, uma conversa no carro, um menino a sorrir, uma mulher deitada na rua e um livro do Abbé Pierre...

1. A Cruz. É interessante como já recebi duas cruzes daquelas mãos; esta foi oferecida depois de uma missa fora de horas e de uma conversa (quase um monólogo) sobre a minha vida e a minha vocação, com jovens universitários, em missão. Convidaram-me para ir falar sobre a presença de Cristo no meu caminho e a minha resposta à sua entrega de amor. Fez-me bem fazer memória dos inúmeros acontecimentos que se tornaram "sacramentos" de Deus em mim; acima de tudo, fez-me bem redescobrir a simplicidade do testemunho, aprendida no olhar dos que me escutavam e na intimidade da celebração eucarística.

2. A conversa. Era a última noite em casa, depois do Carnaval, e, numa conversa a três percebi como andava com um défice de autenticidade na minha vida. Quando o objectivo era resolver o défice de presença junto de duas pessoas essenciais para mim, elas lembraram-me como é fundamental ser fiel a mim mesmo e Àquele que me chamou, mesmo que isso implique ser diferente.

3. O menino. Diziam-me elas que imensas pessoas ficavam surpreendidas com aquela imagem de Jesus menino a sorrir. Eram três mulheres, irmãzinhas de Jesus, congregação feminina que segue a espiritualidade de Charles de Foucauld, e cujo carisma é serem presença de Cristo e da sua Igreja, no meio da realidade do homem, de forma pobre e humilde. Ouvimo-las falar do conceito de deserto, na linguagem espiritual, como forma de viver a Quaresma. Uma vez mais, ouvi-O chamar-me a atenção para a "irradiação eucarística" e para a "unidade do Cristo total", conceitos que me tocam de forma especial...

4. A mulher. A princípio nem reparei nela; depois, através de alguns colegas que se aproximaram dela, dirigi-me também até ao lugar onde ela estava. Disse-me o seu nome e explicou-me que estava a dormir na rua como forma de protesto, apesar de ser uma mulher doente, por que, em vão, tinha esperado demasiado tempo por uma indeminização que nunca chegou. Tentámos demovê-la do protesto, falámos da falta de dignidade da situação, não serviu de muito. Chocou-me a forma como todos desviavam o olhar daquela mulher; começava, então, a caminhada que dava início à Eucarístia, com a Liturgia da Palavra durante a subida do monte. Interroguei-me se as pessoas, que entusiasmadas caminhavam escutando a Palavra, não terão deixado ficar Cristo, sofrendo naquela mulher, no princípio do caminho.

5. O livro. Vindo directamente do Coração de Deus, de um mendigo que montou lá a sua tenda, recebi um livro do Abbé Pierre, cujo título é "Obrigado Senhor". De vez em quando, vou passando os olhos por aquelas páginas e, num destes dias, descobri a "desilusão entusiasta"; percebi como Deus nos desilude, nos limpa da ilusão que são as imagens que vamos criando d'Ele, de nós próprios e dos outros. Deixo-vos uma frase especial: "Sabei de vez em quando apagar tudo/ para que as estrelas voltem".

É por aqui que vai passar a minha quaresma. Deixando que Ele destrua as ilusões, para viver uma autênticidade humilde; acompanhando-O ao deserto, para me deixar inundar de um silêncio orante e operante; descobrindo-O no outro, para aprender d'Ele o serviço à comunhão e à verdade. Tudo isto de forma fiel e confiante. É apagando as luzes artificiais que fui colocando em mim, luzes que tantas vezes me incandeiam, que redescobrirei a beleza da luz das Suas estrelas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Tocar a Unidade de Deus...

"O que existia desde o princípio,
o que ouvimos,
o que vimos com os nossos olhos,
o que contemplámos e as nossas mãos tocaram
relativamente ao Verbo da Vida,
(...)
o que nós vimos e ouvimos,
isso vos anunciamos..."
1 Jo 1, 1.3a
Neste entardecer, na hora em que, pela janela, já alcanço as estrelas que despontam, no crepúsculo de mais um dia, desejo contemplar-Te. O meu coração, Senhor, saciado em tantas fontes, onde busco o infinito, o eterno, o belo, está ainda inquieto; estás tão perto, meu Deus, que apenas na fragilidade da minha condição, posso fechar-Te as portas da minha vontade, do meu sentir, da minha liberdade, do meu ser...
"Que eles sejam um, como Tu e Eu somos Um". É este o grito que emerge das minhas entranhas, o clamor do lugar mais íntimo do ser que me move: que sejamos Um em Ti. Que, por meio do Espírito que queima, purifica, aquece, ilumina e inflama no amor, sejamos conTigo Um só, na comunhão com o Teu Filho e com o mesmo Espírito, comunhão vivida nos irmãos, com os quais creço e edifico o Teu Corpo Místico, onde me abres as portas da Tua vida divina.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Revisitar as origens...

«Hoje caminho... queria ver já a meta, perceber o desfecho da percurso, ter a certeza que estás lá de braços abertos à minha espera. Sei que os Teus projectos vão-se revelando pouco a pouco, ao Teu ritmo, segundo a Tua escala temporal, a eternidade, e nesta busca vou-Te encontrando em cada irmão e em cada acontecimento desta vida, doada por Ti. Só tenho uma certeza... que o Teu Amor repousa em mim... é, nesta confiança, que avanço, ainda que às escuras, porque caminhas à minha frente. Quero aqui deixar as pegadas deste caminho, escolhido por Ti, para que por meio de mim outros encontrem a Tua luz, se deixem fazer morada do Teu Amor...»


Há precisamente um ano atrás, escrevia as primeiras palavras d'O Amor de Deus repousa em mim. Recordo-me de chegar a casa, vindo da tomada de posse do Arcebispo da minha diocese (Évora), D. José Alves, profundamento tocado pelo cântico homónimo do blog, desconcertado pela certeza de ser amado por Deus, e por isso consagrado e enviado n'Ele e por Ele a anunciar a Palavra da vida e da paz. Durante um ano, partilhei aqui o caminho percorrido, lado a lado com Deus, caminho feito de sonhos, de dúvidas, de partidas e chegadas, de encontros e saudade, de esperança e desilusão, de presença e ausência, de luz e sombras... Mas acima de tudo, um caminho onde permaneceu, em cada instante, a dinâmica criadora e renovadora do amor de Deus.

Espero que este pequeno lugar, perdido nos antípodas do ciberspaço, continue a ser lugar de encontro entre Deus e os homens e mulheres, que procuram um sentido e uma Verdade para as suas vidas...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

De volta a casa (Leiria), depois da experiência "Integrar a diferença", na Casa de Saúde do Telhal, e do Retiro, na última semana, volto aqui para responder ao desafio que o Joca me deixou no "Porque nada é impossível para Ti"... A proposta era abrir o livro de cabeceira, ou outro de especial preferência, na página 161, ler a frase da linha 5 e transcrevê-la aqui; no dito lugar está escrito:


"Depois me reconheceu pela voz, perguntou se eu não era a congressista que abordara a relação profética de Vieira com o mundo da época, e falou que eu estava completamente errada, que eu não fazia nem ideia de quem era Vieira."

A citação é do livro "A Eternidade e o Desejo", de Inês Pedrosa, que me ofereci a mim mesmo no dia dos meus anos. É um romance que descreve a viagem de uma portuguesa, Clara, que parte para o Brasil em busca de um amor perdido para sempre, da reconciliação consigo mesma, da luz (era cega!) que bebia dos texto do Pe. António Vieira, que tinha como mestre. Deixo apenas uma frase que, em jeito de abertura, se apresenta num daqueles prolongamentos da capa, dobrados para dentro do livro, dos quais não sei o nome: "Vieira não precisava de nada nem de ninguém. No fundo, acho que lhe bastava a consciência de que tinha Deus dentro de si - ou a Eternidade, ou o conhecimento, como preferires. Era um precursor; fervia-lhe no peito uma verdade e só com ela tinha ligação."

Deixo o desafio a todos os bloguistas que me visitarem... Boas leituras para todos ;)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

"Cada instante em mim foi vivo"...

"Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca minhas mãos ficam vazias."

"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem."

Sophia de Mello Breyner Andresen


O tempo vai passando por mim e sinto paz; não uma paz livre de tensões e combates interiores, mas uma paz trazida pela certeza que vou caminhando na esperança de uma felicidade que me ultrapassa e está para além dos meus limites, mas que é fruto da promessa de um Deus que me ama. Desta vez o dia dos meus 19 anos foi diferente de qualquer outro aniversário no passado, radicalmente diferente. As pessoas que, no coração, trago mais perto do lugar de Deus, porque as amo, chegaram-me apenas pelo som alegre e ternurento das suas vozes, trazidas por meio de um telemóvel. A distância, que vivi e sofri nos últimos tempos ao pensar naquele dia, foi destronada por uma imensa paz, por uma certeza confiante de estar no lugar certo e pela consciência de que aqueles de quem senti a falta estão verdadeiramente presentes na minha escolha, nos meus gestos, na minha vida porque ajudaram a construir e a crescer aquilo que, hoje, sou. Ficou a presença, o conforto e o esforço dos colegas e amigos da Comunidade do Seminário que, como lhes disse, tornaram o meu dia uma oportunidade de celebrar a nossa história com Deus, a vida que resulta das maravilhas que faz por amor.