sexta-feira, 8 de maio de 2009

"Eu gravei a tua imagem na palma das Minhas mãos"...

"Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. Eis que Eu gravei a tua ima­gem na palma das minhas mãos."
Is 49, 15-16

Algumas vezes, meu Pai, foi esta percepção clara de ter sido sonhado, criado e escolhido por Ti, de permanecer "escondido na palma da Tua mão", que permitiu que caminhasse conTigo e para Ti. Nos momentos em que me senti naufragar nas águas inquietas e traiçoeiras dos meus sonhos e ilusões, pude experimentar como Te fazes a força daqueles que em Ti confiam.
Compreendo, hoje mais que nunca, que caminho no meio de um Povo de coração ferido, de homens e mulheres que se esqueceram de esperar, confiar, acreditar em si mesmos, nos outros e, principalmente, em Ti. Na minha fragilidade, percorro com eles os caminhos do nosso mundo, inúmeras vezes destroçado por dentro, procurando como todos um salvador e um libertador à minha medida.
Contudo, Tu, Abbá, ages de forma substancialmente diferente, com a Tua novidade permanente e a força do Teu amor. Não Te limitas a olhar-nos, a cuidar de nós, a caminhar connosco. Não, Tu tornas-Te um de nós, tomas para Ti o que somos, os nossos jeitos de sonhar, de sentir, de amar, de sofrer... É connosco e partindo de nós mesmos que vens libertar-nos, fazendo-Te dom no amor, em Jesus, o Teu Ungido. Em mim, "despertas cada manhã os meus ouvidos" e fazes-me compreender que devo ser, no meio dos corações feridos, a tenda de encontro entre Ti e os homens e mulheres, o lugar da cura e da reconciliação...
Tu que és meu Pai, que me sonhas e crias para Ti, preenche-me do Teu Espírito, da dinâmica de amor que és. Sê a minha força, guardando-me com ternura na palma da Tua mão, e faz de mim o óleo derramado nos corações feridos dos sem-esperança, o óleo da consolação e da alegria, o óleo de agradável perfume na Tua presença. Amen.

"Mandai-nos apóstolos de coração puro, testemunhos santos.
Rostos claros de pessoas felizes porque escolhem o máximo,
arriscam tudo e recebem cem vezes mais."

Oração da Semana das Vocações

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Saboreei e vi...


"Saboreei e vi com a luz da inteligência, ilustrada na vossa luz, o vosso abismo insondável, ó Trindade eterna, e a beleza da vossa criatura. Por isso, vendo-me em Vós, vi que sou imagem vossa por aquela inteligência que me é dada como participação do vosso poder, ó Pai eterno, e também da vossa sabedoria, que é apropriada ao vosso Filho Unigénito. E o Espírito Santo, que procede de Vós e do vosso Filho, me deu a vontade com que posso amar-Vos.
Porque Vós, Trindade eterna, sois criador e eu criatura; e conheci – porque Vós mo fizestes compreender quando me criastes de novo no Sangue do vosso Filho – conheci que estais enamorado da beleza da vossa criatura.
Oh abismo, oh Trindade eterna, oh Divindade, oh mar profundo! Que mais me podíeis dar do que dar-Vos a Vós mesmo? Sois um fogo que arde sempre e não se consome. Sois Vós que consumis com o vosso calor todo o amor profundo da alma. Sois um fogo que dissipa toda a frialdade e iluminais as mentes com a vossa luz, aquela luz com que me fizestes conhecer a vossa verdade.
Espelhando-me nesta luz, conheço-Vos como sumo bem, o bem que está acima de todo o bem, o bem feliz, o bem incompreensível, o bem inestimável, a beleza sobre toda a beleza, a sabedoria sobre toda a sabedoria: porque Vós sois a própria sabedoria, o alimento dos Anjos, que com o fogo da caridade Vos destes aos homens.
Sois a veste que cobre toda a minha nudez; e alimentais a nossa fome com a vossa doçura, porque sois doce sem qualquer amargor. Oh Trindade eterna!"

Sta. Catarina de Sena

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Mistério Pascal, mistério de Esperança...

"Desde a alvorada de Páscoa, uma nova primavera de esperança invade o mundo; desde aquele dia, a nossa ressurreição já começou, porque a Páscoa não indica simplesmente um momento da história, mas o início duma nova condição: Jesus ressuscitou, não para que a sua memória permaneça viva no coração dos seus discípulos, mas para que Ele mesmo viva em nós, e, n’Ele, possamos já saborear a alegria da vida eterna. (...)Resurrectio Domini, spes nostra – a ressurreição de Cristo é a nossa esperança! É isto que a Igreja proclama hoje com alegria: anuncia a esperança, que Deus tornou inabalável e invencível ao ressuscitar Jesus Cristo dos mortos; comunica a esperança, que ela traz no coração e quer partilhar com todos, em todo o lugar (...) A Ele, Rei vitorioso, a Ele crucificado e ressuscitado, gritamos com alegria o nosso Aleluia!"
Bento XVI, Mensagem Urbi et Orbi, 12/04/09

O Pão que contém o dom de Deus foi repartido; quebrou-se o Vaso e a casa encheu-se de perfume; o grão de trigo, morto na terra, já germina em frutos de Vida. Aquele que morreu, fazendo de Si mesmo o dom do amor do Pai, está Vivo para sempre: Ressuscitou! Que o dom da esperança e da alegria, que brotam do sepulcro aberto na primeira manhã de Domingo, se tornem em nós fonte de Vida Nova que, em cada dia, renova em nós a Páscoa de Jesus...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

"Fazei Isto em Memória de Mim"...

Não. Ainda não compreendemos, Senhor... Não tomámos ainda para nós o gesto do pão repartido, em que Te dás todo; não acolhemos o Teu ajoelhar perante a nossa miséria para dela nos lavares; não aceitámos ainda a Tua "soberana dádiva de amor, para todos e para sempre", começada já nesta tarde de Quinta-Feira. Não permitas, Jesus, que caminhemos de mãos fechadas, apertando contra nós, num egoísmo estéril, aquilo que somos, que de Ti recebemos, mas que desejamos possuir com uma avidez mortal.

Faz de nós, Senhor Jesus, o pão repartido pelos últimos deste mundo, por todos os homens e mulheres que connosco caminham, o pão que em si contém o dom da vida plena e do amor até ao fim. Faz de nós o vaso quebrado que, sobre a cabeça de todos os que nos deste como irmãos, derrama o óleo da alegria e da misericórdia e enche toda a Casa de perfume. Deixaste-nos o exemplo e a palavra: "amai-vos como Eu vos amei"... Hoje, faz de nós servos ao Teu jeito...

*rezado na noite de Quinta-Feira Santa - 09/04/09

terça-feira, 24 de março de 2009

No princípio...

Andava às voltas na biblioteca e, por curiosidade, decidi procurar nos "Ensinamentos de João Paulo II" as palavras proferidas pelo Papa no dia 27 de Janeiro de 1990, o dia em que nasci. João Paulo II encontrava-se, então, numa viagem apostólica à Guiné-Bissau. Lá estava o discurso que, em baixo, transcrevo... Profundamente tocado pela ternura de Deus, descobri, hoje, as palavras que quis dizer-me no início do caminho, na certeza de as ter ouvido inúmeras vezes ao longo destes 19 anos:


«São outros tantos convites, que o Senhor vos dirige; e, da vossa parte, existe a responsabilidade de dar resposta a cada um deles. Uma resposta concreta, efectiva, generosa; aberta às exigências e às necessidades urgentes da população da vossa terra; e aberta aos instantes apelos de tantas almas, que esperam pela verdade de Cristo ou se interrogam sobre a mensagem do Evangelho.
Na realidade, ser sacerdote, ser missionário significa ter escutado, como Pedro, o convite a deixar tudo e a seguir Cristo, confiando unicamente na sua promessa tranquilizadora: “ Não tenhas medo, farei de ti pescador de homens ”.
Na oração e na meditação, durante estes anos em que vos preparais para o futuro, para servirdes na difusão do Reino de Deus, tende sempre presente esse diálogo entre Pedro e Jesus. Que haja no vosso íntimo o desejo de falar com Cristo sobre a missão que vos espera; falar-Lhe da escolha que estais a fazer e para a qual vos preparais, em atitude de quem confia na graça do Senhor; falar-Lhe das coisas que Ele nos indicou no “ Pai-Nosso ” e no Cenáculo, durante a última Ceia. Tende un coração aberto para fazerdes o dom da vossa vida a essa missão! E procedei com humildade, bem conscientes de que o serviço sacerdotal é deveras exigente e que a entrega aos outros levar-vos-á a ter de enfrentar situações complexas e difíceis.
Vivei a união com Cristo, com fé ardente, na oração, para poderdes sempre encontrar n’Ele a força necessária para perseverar e vos tornardes, como Ele, “ homens para os outros ”. Ele continua a convidar e a propor a cada um de vós: “ Farei de ti pescador de homens ”.
»

quinta-feira, 19 de março de 2009

"Vou seduzir-te até ao deserto e falar-te ao coração..."


Resta apenas o silêncio e a paz do coração... Chegado do encontro de intimidade conTigo é-me impossível silenciar o coração, irrequieto no desejo de continuar a sussurrar o meu pequeno "amo-Te". Hoje não resisto, Senhor. Como poderia eu não escutar a voz d'Aquele que me cativou com a sua misericórdia e amor eternos? E deixo-me ir até ao deserto, guiado pela Tua mão, onde caem as máscaras e as aparências, onde não há lugar para a banalidade, onde quebras as minhas ilusões, onde a Verdade prevalece... Aqui onde só restamos nós, face a face, os meus pequenos nadas e a deslumbrante sarça que arde sem se consumir, que diz, vezes sem conta, "Eu sou Aquele que amo". Esta noite, Tu sabe-lo, desejei de todo o coração ser aquela mulher que todos sabiam pecadora, aquela que, profundamente seduzida por Ti, não teve medo de se prostrar aos Teus pés e beijá-los, na humildade das suas lágrimas, aquela que, antecipando o dia em que, por um pouco, repousarias na paz do sepulcro, Te ungiu com perfume, a Ti o Ungido do Pai. Só depois percebi, ó Deus apaixonado, que enquanto me perdia nestes sonhos de criança segura no colo do Pai, eras Tu que te ajoelhavas diante de mim, saravas as minhas feridas com as lágrimas da Tua compaixão e me ungias com o Espírito que, na derradeira hora do amor até ao fim, entregaste àqueles por quem Te davas. Pode um coração pequenino e frágil resistir ao seu Amado, que se dá todo? No deserto, onde "sei que a fonte mana e corre, embora seja noite", diante do Esposo que se esvazia para que eu viva, que não teme ajoelhar-se para perdoar, coloco-me todo em Ti e, enraizado na esperança, caminho para a Jerusalém do Alto, onde poderás desposar-me na fidelidade, na misericórdia e no amor... Uma vez mais, não resisto olhar-Te nos olhos, para dizer "amo-Te"...

sábado, 14 de março de 2009

“Um Santo nunca é para imitar, é para inspirar. Logo há que destronar a auréola que o envolve para agarrar a santidade.”
Pe. Vasco Pinto Magalhães, sj


Partilho convosco um texto que escrevi à uns tempos, como introdução a um trabalho sobre um dos Santos da Igreja. Neste tempo quaresmal é bom deixarmo-nos interpelar pela santidade daqueles que chegaram perto de Deus, como ponto de partida para o nosso "regresso a Casa"...

Há nos Santos qualquer coisa que atrai o comum dos mortais. Precisamos constantemente de referências, de modelos que nos indiquem a meta, de super-homens que nos façam acreditar que somos capazes de grandeza. É frequente tomarmos os Santos por semi-deuses, cuja grandeza reside naquilo que podem fazer por nós, naquilo que de bom nos podem obter. No entanto, a Igreja diz-nos que o valor da santidade não reside aí, antes se identifica na verdadeira comunhão com Deus, aquele que é verdadeiramente Santo, no caminho que tantos homens e mulheres percorreram antes de nós, actualizando as palavras e os gestos de Jesus de Nazaré, Filho de Deus e Salvador do Homem. Ser santo é antes de mais ser companheiro de Jesus, aceitar comprometer-se na relação pessoal com Ele, na disponibilidade para acolher o Seu Espírito, na certeza de se ser amado por Deus. E longe de recusar o valor do Homem e da sua condição, a santidade constrói-se com aquilo que somos, com os dons e as fragilidades que nos são próprios, e no ir ao encontro de Deus, procurando-O no mundo e naqueles que nele caminham. Ser santo é ter a capacidade de abrir-se ao Ser, que ultrapassa o que somos, é procurar, a cada momento, tocar a Luz que dissipa toda a escuridão. No caminho da Cruz, que se abre na Ressurreição, na Vida plena de Deus, o santo aceita a vontade d’Este e torna-se lugar da Sua presença e de encontro d’Ele com os homens e as mulheres do seu tempo. De olhos fixos em Cristo Ressuscitado, que lhe deixa a promessa da Vida, e simultaneamente no momento presente em que caminha, o santo intui os sinais dos tempos e faz-se servo daqueles que, como irmãos, lhe foram confiados. E neste peregrinar, lado a lado com Jesus, de regresso a Casa, o homem tocado e comprometido com Deus, deixa feixes de santidade, abre caminhos de encontro e comunhão com Ele, prontos a serem percorridos por aqueles que vierem mais tarde.


Porque não começar hoje?